Desindustrialização


A ascensão das finanças é uma tendência incontestável do atual regime de acumulação capitalista. Seus efeitos são cada vez mais evidentes na vida social. Os conflitos econômicos e sociais criados pelo domínio das finanças sobre o processo de acumulação estão na base das recentes transformações estruturais do modo de produção e distribuição da riqueza e do processo de desindustrialização das economias capitalistas. A forma financeira de acumulação do capital se caracteriza pelo conflito entre acumulação real e financeira, que se materializa na divisão (social e internacional) do trabalho, e definem a forma da apropriação da riqueza (nacional e mundial). Essa determinação tem dois aspectos que se reforçam mutuamente: o perfil desindustrializante e a volatilidade intrínseca do regime de acumulação instaurado pelas finanças. Ambos são determinações do conceito de desindustrialização. Esse termo aponta a tendência da produção industrial (imediata) desocupar o centro do processo de acumulação capitalista. Trata-se de um fenômeno que envolve dois processos simultâneos e complementares, ambos desencadeados pela crise estrutural do capital dos anos 1970: um de redistribuição geográfica do capital industrial, determinado por vantagens locacionais e outras associadas à internacionalização da produção, e outro de desmaterialização da produção capitalista, determinado pelo atual regime de acumulação financeira, decorrente do esgotamento do regime de acumulação ‘rígida’ do capital e ligado ao progresso tecnológico e inovações das telecomunicações, etc. A expressão indica tanto uma tendência à estagnação da indústria manufatureira como centro dinâmico da acumulação quanto o aumento da produção de mercadorias intangíveis, especialmente de serviços, no conjunto da produção capitalista. Em suma, o processo de transnacionalização, informatização, e financeirização das atividades econômicas, com a respectiva mudança no padrão de acumulação e na divisão internacional do trabalho, têm levado a reestruturação espacial da indústria e a desindustrialização das economias centrais e periféricas, com resultados cada vez mais deletérios para as atividades produtivas. Esse processo de desindustrialização não é o resultado de um movimento espontâneo da acumulação capitalista no longo prazo, como tentam transparecer as análises ortodoxas pseudobjetivas e suas variantes, que encaram as mudanças estruturais como resultados do desenvolvimento ‘natural’ do capitalismo. Trata-se de um movimento induzido pelo capital financeiro, que tem colocado a indústria e seu ritmo de acumulação sob o domínio das finanças. Com a certeza subjetiva de que a manipulação devora a práxis assim como a desideologização devora a teoria, os arautos do capital financeiro mundializado tentam, com proposições nada plausíveis, embaralhar a opinião pública e impedir objetivamente a luta contra essa forma deletéria de acumulação capitalista. No emaranhado da propriedade cruzada do capital é difícil identificar a nacionalidade do produto industrial. Entretanto, não é difícil imaginar que os elos mais fracos das cadeias produtivas da indústria se desmancharam em mãos de brasileiros. Eles representam a parcela mais industriosa do empresariado nacional, dedicado a produção de maior valor embarcado e capital imobilizado. Suas condições de acesso ao crédito certamente não são as mesmas que o capital financeiro impõe às suas estruturas produtivas ao redor do mundo. A diferença entre o produto industrial interno e nacional não é apenas o resultado da sedução do capital portador de juros, mas dos parâmetros de rentabilidade e distribuição dos riscos das finanças localizadas nos grandes centros decisórios mundiais. Com certeza, saber a procedência do capital industrial soterrado na avalanche neoliberal seria interessante, mas não indispensável para uma análise dos impactos da ‘ditadura dos credores’ sobre a divisão social do trabalho na economia brasileira. Afinal, a liberalização comercial abre para a indústria a possibilidade de relocalização da produção e exploração da força de trabalho em outros países, um procedimento cada vez mais recorrente na economia globalizada. Para os detentores do capital, os ativos das empresas são valores transacionáveis, jamais imobilizados, que podem ser negociados sempre que a rentabilidade das ações for considerada insuficiente. Como fontes de financiamento das empresas e do governo, em substituição aos bancos, os fundos de investimento e outras instituições do capitalismo patrimonialista ignoram as estratégias de crescimento das empresas, exigem uma rentabilidade elevada no curto prazo, criando dificuldades aos investimentos de longo prazo. Por isso, as recentes operações de câmbio relacionadas aos investimentos diretos estrangeiros e ao comércio internacional representam apenas 25% do total das operações cambiais realizadas pelo sistema financeiro internacional. A participação relativa da indústria na estrutura da produção e do emprego de uma economia só pode ser avaliada corretamente se for compreendida no quadro da nova divisão internacional do trabalho (DIT). Ao enquadrar as estruturas produtivas dos países periféricos aos requisitos da acumulação capitalista dos países avançados, a DIT transforma ambas as dinâmicas (interna e externa) da acumulação do capital industrial. Sob o pano de fundo da liberalização dos fluxos econômicos e financeiros, resultante das transformações no regime de acumulação capitalista, é imprescindível ver como evoluíram as categorias centrais de acumulação do capital industrial, especialmente a partir do rompimento do padrão monetário internacional no final da década de 1970, em particular o processo de financeirização da riqueza, que subordina e condiciona o crescimento do capital industrial ao processo de valorização financeira, de relocalização e reestruturação espacial do capital industrial. Essas transformações têm redistribuído a riqueza entre os países e regiões mais favoráveis a acumulação do capital industrial, ao mesmo tempo em que impulsiona a revolução nas tecnologias de informação e digitalização das atividades econômicas, que implicam na concentração e centralização de uma estrutura de serviços financeiros, bancários e corporativos nos principais centros financeiros do sistema capitalista. A explicação de tais processos coincide, portanto, com a caracterização atual do regime de acumulação capitalista, que está por trás do fenômeno da desindustrialização da maioria das economias capitalistas. No Brasil, a política macroeconômica de atrelamento entre juros e câmbio, que afeta negativamente o investimento produtivo, principalmente na indústria de transformação, reforça o processo de desindustrialização e aumenta a dependência e a vulnerabilidade externa. Com a mudança patrimonial das empresas e o crescimento das ETNs no país, a dinâmica dos investimentos está mais ligada às estratégias dos grandes centros produtivos e/ou financeiros internacionais. Com isso, o papel do Brasil na divisão internacional do trabalho passou a ser de plataforma de valorização do capital financeiro e fornecedor de recursos naturais, com a reprimarização da pauta de exportaç̧ão impulsionada pela sobrevalorização cambial. Referência: HAFFNER, Jacqueline A; SILVESTRE, José M. Brasil: globalização financeira e desindustrialização. In: Cadernos do Desenvolvimento, Rio de Janeiro, v. 11, n. 18, pp.55-77, jan.-jun. 2016.
By Matthew Neugeboren and Stephanie ValeraApril 12, 2016

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