Financial network

A globalização financeira tem aprofundado o domínio das finanças sobre o capital produtivo e, com isso, as instituições financeiras têm ampliado o seu controle sobre os mercados tradicionalmente não abarcados pelos bancos, fundos de pensão e outras instituições que operam no mercado monetário e de capitais. As funções bancárias tradicionais têm sido ‘complementadas’ cada vez mais por funções industriais. Desde minas de carvão e refinarias, de depósitos de metal e participação em portos e aeroportos, a ampliação das atividades não-bancárias dos bancos em todos os segmentos da vida econômica tem tornado as finanças cada vez mais dominantes no sistema econômico. Por exemplo, o banco de investimentos Goldman Sachs administra em Detroit (EUA) 27 armazéns, onde guarda atualmente 1,5 milhões de toneladas de alumínio. A função de abastecer o mercado de commodities não é uma função tradicional do sistema bancário. Contudo, em 1999, as regras que impediam os bancos de operarem com matérias-primas foram revogadas nos EUA e, desde que o FED esteja de acordo, os bancos têm autorização para operar no comércio de commodities, controlando o mercado, limitando a oferta e manipulando os preços. No caso do Goldman, o alumínio pertence a outros bancos, aos fundos de hedge e comerciantes de commodities, que pagam US$ 0,48 por tonelada armazenada, na expectativa de obter vantagem das flutuações de preços; ou seja, especular com os preços das mercadorias. Apesar das críticas da Millercorp e da Coca Cola, sobre a atuação no mercado de alumínio, os bancos têm disponibilizado, de acordo com a Boeing e outras empresas, uma infraestrutura que favorece a gestão dos riscos. No entanto, a atuação dos bancos não se limita a disponibilizar uma infraestrutura para redução dos riscos, quer mesmo especular com os preços das commodities para obtenção de ganhos financeiros. Um outro exemplo de atuação especulativa e controle de infraestrutura de produção é do fundo de pensão norte-americano TIAA-Cref, administrador de aposentadorias de professores e outros trabalhadores. O fundo tem adquirido ilegalmente terras agrícolas no Brasil, no valor de bilhões de dólares, cuja extensão alcançou 256.324 hectares em 2015, ante 104.3559 em 2012, contornando a legislação que proíbe a participação estrangeira nessa escala. Essa tendência geral de dominação dos sistemas produtivos pelos especulativos é um desdobramento da instabilidade global criada pelo recente desenvolvimento do capital financeiro. As corporações financeiras mais ligadas aos sistemas produtivos não têm interesse em contribuir para um sistema mais ‘racional ‘de alocação de recursos financeiros. De qualquer modo, para essas corporações, o caminho se descortina pela transferência do controle da acumulação real para as corporações financeiras. Pois, além do poder das finanças sobre outras áreas corporativas, em particular sobre os sistemas produtivos, há também a questão da concentração do controle das finanças globais, um aspecto relevante da globalização financeira apontado pela pesquisa do Federal Swiss Technology Institute (ETH) de Zurich, publicada recentemente, onde os pesquisadores elaboraram um primeiro mapa da rede global de controle das corporações transnacionais. A partir de uma base de dados com 37 milhões de empresas e investidores do banco de dados Orbis 2007, foram selecionadas 43.060 corporações transnacionais. O estudo analisa o relacionamento dessas corporações entre si, como o peso econômico, a rede de conexões, os fluxos financeiros e a participação acionária mútua de tais corporações, que permite o controle indireto entre elas e a construção de uma rede de poder econômico em escala mundial. A análise concluiu que as corporações formam uma gigantesca estrutura, na qual grande parte do controle flui para um pequeno núcleo fortemente articulado de instituições financeiras. O relatório de Vitali, Glattfelder e Batiston (2011) mostra basicamente que 737 dos principais atores (top-holders) controlam 80% do valor das grandes corporações transnacionais, um controle dez vezes superior ao esperado com base em sua riqueza. Quer dizer, a distribuição do controle em rede (network control) é mais desigual do que a distribuição da riqueza, da participação acionária de cada ator global. O controle é definido pela participação dos atores econômicos na propriedade das ações, que corresponde às oportunidades de ver seus interesses predominarem na estratégia de negócios das empresas. Como o conceito é desenhado pelo conjunto da rede de participações, ele conduz à noção de controle em rede, definido assim pelo montante total de valor econômico sobre o qual o ator global exerce influência. O modelo analisa o rendimento operacional e o valor econômico das corporações e detalha as tomadas mútuas de participação em ações (mutual cross-shareholdings), identificando as unidades mais fortemente conectadas dentro da rede. Para os pesquisadores, esse tipo de estrutura pode ser entendido como uma estratégia de proteção contra tomadas de controle (anti-takeover strategies), redução de custos de transação, compartilhamento de riscos, aumento de confiança e de grupos de interesse, ou outra explicação qualquer. Entretanto, independente da sua causa, resulta no aumento da fragilidade dos mercados pela concentração do poder econômico, posto que cerca de 3/4 da propriedade das corporações no núcleo acabam nas mãos de corporações do próprio núcleo. Trata-se de um grupo fortemente estruturado de corporações que detêm a maior parte da propriedade umas nas outras. O mapeamento detalha a concentração do controle e identifica os atores globais que detêm o maior controle no topo. Eles identificaram, no meio da teia de propriedades cruzadas, um core de 147 corporações intimamente relacionadas que controla 40% da riqueza total daquele primeiro núcleo central, quase 2/5 do controle sobre o valor econômico das corporações e quase pleno controle sobre si mesmo. De fato, menos de 1% das companhias controla 40% da rede inteira, e a maioria delas são bancos. Em suma, na rede global das corporações, 3/4 dos atores globais do topo do núcleo duro são corporações financeiras. Segundo o diretor executivo de estabilidade financeira do Bank of England Andy Haldane, o núcleo de 147 corporações investigado pelo ETH controla um estoque de contratos financeiros emitidos (outstanding financial contracts) que alcança atualmente cerca de quatorze vezes o PIB anual mundial. O estudo pondera que 147 corporações ainda seria um número grande demais para sustentar um acordo preliminar de atuação, que redundaria numa eventual conspiração. O problema seria saber se o núcleo de poder econômico tem o poder de exercer intencionalmente e de maneira centralizada um poder político. Contudo, para os autores, apesar de atuarem de modo concorrencial no mercado, as corporações em conjunto atuam em benefício dos seus próprios interesses, especialmente o interesse de evitar qualquer mudança na estrutura da própria rede. Em outras palavras, a conexão entre a concentração de poder econômico e o poder político existe independentemente das razões pelas quais as corporações são adquiridas entre si, se por razões financeiras ou para dominar a economia global. O resultado da expansão e concentração do capital financeiro é uma dupla dinâmica de intervenção organizada para a proteção dos interesses sistêmicos e de competição desenfreada das corporações no mercado mundial. O que se observa atualmente é um SFI articulado e demasiadamente fechado para ser regulado pelas forças de mercado e pelos estados nacionais e, ao mesmo tempo, incapaz de administrar o volume descomunal de recursos financeiros que controla, para onde escoa uma soma de valores que representa cerca de quatorze vezes o PIB mundial, mas que pode chegar a vinte vezes o valor da produção da economia global, aproximadamente 1,24 quatrilhão de dólares. Uma riqueza cada vez mais concentrada e controlada pelo capital financeiro. Essa quantia absurda de dólares estaria alavancando a sua própria expansão, uma riqueza acumulada em dólares americanos, pelos bancos, grandes corporações e pelos estados nacionais. Referências: GLATTFELDER, J. B. The capitalist network that runs the world (Interview). New Scientist, Zurich, 24 nov. 2011. VITALI, S.; GLATTFELDER, J. B.; BATTISTON, S. The network of global corporate control. Zurich: Federal Swiss Institute of Technology (ETH), 2011.

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